Bastou observar a evolução dos preços, das taxas de juros, do crédito ou do número de transações para entender a direção do mercado. Hoje, essa realidade mudou. Na minha opinião, o futuro do imobiliário português não está mais decidido dentro do setor. Ele decide cada vez mais fora disso.

Pode parecer uma declaração provocativa, mas basta ver o que está acontecendo em Portugal. Quando uma empresa internacional escolhe nosso país para montar um centro de tecnologia, uma unidade industrial ou um data center, ela não está apenas criando empregos. Também está gerando demanda por moradia, escritórios, logística, comércio, escolas e serviços. O impacto começa na economia, mas atinge rapidamente o mercado imobiliário.

O mesmo se aplica aos investimentos em energia, inteligência artificial, tecnologia, defesa ou economia azul. São projetos que atraem talentos qualificados, criam novos ecossistemas de negócios e transformam territórios. Onde há atividade econômica sustentável, inevitavelmente há pressão sobre o mercado imobiliário. É por isso que considero cada vez mais redutor analisar o setor apenas através do preço das casas

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O verdadeiro valor de uma propriedade começa muito antes da construção do edifício. Tudo começa quando há uma universidade capaz de treinar talentos, empresas que criam emprego qualificado, boa acessibilidade, energia disponível, escolas, hospitais, segurança e qualidade de vida. Em resumo, começa quando há um território preparado para crescer.

Foi justamente essa reflexão que surgiu durante uma conversa recente nas Serenatas da Mediação, no Algarve. Entre os especialistas do setor, a conclusão foi praticamente consensual: continuamos discutindo habitação quando deveríamos estar discutindo cidades. Eu acrescentaria uma ideia ainda mais abrangente. Deveríamos estar discutindo regiões.

As empresas não escolhem mais apenas terrenos. Eles escolhem ecossistemas. Eles escolhem a capacidade de atrair pessoas, inovação e investimento. E é justamente aqui que o setor público desempenha um papel decisivo. Não basta acelerar o licenciamento ou aprovar novos projetos. É preciso planejar o território de forma integrada, articulando moradia, mobilidade, educação, saúde, energia e desenvolvimento econômico. Sem essa visão comum, continuaremos a resolver problemas isolados sem criar soluções duradouras.

Nos últimos meses, escrevi sobre data centers, energia, inteligência artificial, nearshoring, economia azul e investimento estrangeiro. À primeira vista, parecem ser temas independentes. Na realidade, todos eles influenciam diretamente o futuro do setor imobiliário, porque todos eles mudam a forma como as pessoas vivem, trabalham e escolhem os territórios onde querem investir.

Talvez tenha chegado a hora de parar de perguntar quantas casas precisamos construir. A questão mais importante é saber qual país estamos preparando para que essas casas façam sentido.

Porque o futuro do imobiliário português não será definido apenas por promotores, consultores ou agentes do setor. Será decidido pela capacidade de Portugal de criar regiões competitivas, capazes de atrair talentos, empresas e investimentos

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No final, os imóveis não serão mais vendidos apenas por metro quadrado.

Ela venderá, acima de tudo, a qualidade do território.