A fusão das empresas espanhola Moeve e portuguesa Galp, que deu origem ao maior grupo de refinação de petróleo e energia da UE, foi acordada em janeiro passado, na sequência de propostas apresentadas por investidores de fundos soberanos liderados pelo Carlyle Group, um dos maiores e mais influentes grupos de capital de risco do mundo

Surgirão duas entidades distintas.

1) A empresa industrial será controlada pela Carlyle e pelos seus investidores, com a Galp a deter uma participação minoritária de 20%. A combinação das três refinarias existentes da Moeve com as da Galp resultará num processamento de crude de 700 000 barris por dia. Todas as quatro unidades irão concentrar-se gradualmente na produção de biocombustíveis e hidrogénio verde.

2) A Empresa de Retalho ficará sob o controlo conjunto da Galp e dos acionistas da Moeve. Irá criar uma rede ibérica de, pelo menos, 3 500 estações de serviço, que incluirá uma nova infraestrutura de carregamento para veículos elétricos e prestará serviços comerciais alargados em lojas de estrada e instalações de manutenção.

A Galp manterá a exclusividade da sua rede em expansão de centrais de eletricidade verde (energias renováveis), da sua lucrativa divisão de exploração global e da sua posição nos mercados internacionais de comercialização de energia.

O que preocupa o governo português é que esta fusão de interesses por parte de um consórcio estrangeiro possa prenunciar uma redução ou mesmo o encerramento da produção em Sines, com consequentes dificuldades nacionais no abastecimento e na fixação dos preços dos combustíveis.

Isto também agrava diretamente os receios económicos de que o Parque Industrial de Sines seja potencialmente um enclave de investimento inteiramente estrangeiro em produtos altamente estratégicos e de crescente importância geopolítica.

O que preocupa a UE é que este constitua mais um passo na redução da sua autoridade e possa muito bem conduzir a violações do seu acervo comunitário e ao objetivo de uma eventual federação.

Parece que pouco se pode fazer para impedir um facto consumado, embora manobras jurídicas relativas à tributação e à gestão possam resultar num acordo sobre questões de segurança nacional

O Carlyle Group foi criado em 1987 por David Rubenstein e outros dois especialistas em direito e operava no mercado altamente competitivo e implacável de «aquisição» de empresas em dificuldades, quer para reabilitação e revenda, quer para a liquidação de ativos. Em ambos os casos, o desemprego em massa de trabalhadores envelhecidos e improdutivos era inevitável, mas altamente lucrativo. O grupo entrou na bolsa em 2012, transformando todos os seus fundadores e muitos dos seus executivos em bilionários. Na sequência disso, o Grupo diversificou-se para outros ramos, tais como o financiamento de armamento e o setor imobiliário.

Em Portugal, através do Carlyle Europe Realty Fund, constitui uma fonte de capital para fundos imobiliários pan-europeus e para empreendimentos emergentes nos setores da IA e das TI. Nesse contexto, contratou recentemente agentes para adquirir armazéns, edifícios industriais e centros comerciais nos distritos de Lisboa e do Porto, com a intenção de os renovar e, posteriormente, arrendar a inquilinos do comércio eletrónico. Em março de 2026, a Carlyle vendeu o Penha Longa Resort and Hotel, que tinha adquirido em 2018. Anteriormente, tinha alienado a sua participação maioritária na empresa de embalagens de Cascais, a Logoplaste, e mantém agora uma postura relativamente discreta.

Para mais informações, consulte:«Sines – Energia para o Futuro»TPN 02.06-2026 e «Grupo de armamento norte-americano ruma a Lisboa» TPN 06-04-2003.