Durante demasiado tempo habituámo-nos a olhar para Portugal como destino de turismo, imobiliário, serviços e algumas indústrias tradicionais. Tudo isso continua a ser importante, mas quem observar atentamente aquilo que está a acontecer nos últimos anos encontrará um país diferente a emergir. Um país onde se fala cada vez mais de inteligência artificial, defesa, drones, centros de dados, robótica submarina, economia azul e, agora, inteligência soberana a partir do espaço.

A ICEYE, líder europeia em informação soberana espacial, decidiu aprofundar a sua presença no nosso país através da criação de uma estrutura nacional liderada por Rui Costa e de um centro de excelência dedicado ao desenvolvimento de software, integração de sistemas e inteligência artificial. Não estamos apenas a falar da abertura de um escritório. Estamos a falar da criação de conhecimento, emprego altamente qualificado e capacidade tecnológica em áreas que serão estratégicas para a Europa nas próximas décadas.

Portugal já adquiriu quatro satélites da ICEYE, dois dos quais foram lançados, e procura desenvolver uma constelação capaz de apoiar a monitorização do seu enorme domínio marítimo e da Zona Económica Exclusiva. Num país com uma relação histórica tão profunda com o Atlântico, parece-me quase inevitável que o espaço passe a fazer parte da forma como protegemos, compreendemos e exploramos de forma responsável o nosso território marítimo.

Mas existe outra dimensão igualmente importante. Esta tecnologia não serve apenas a defesa ou a segurança. Pode ajudar na resposta a incêndios, inundações e outras catástrofes naturais, fornecendo informação praticamente em tempo real, independentemente das condições meteorológicas ou da cobertura de nuvens. Isto demonstra como as tecnologias de dupla utilização estão a aproximar áreas que antes pareciam completamente separadas.

O que mais me interessa neste anúncio é, porém, o padrão que começa a tornar-se evidente. Portugal está gradualmente a atrair empresas e projetos ligados às infraestruturas críticas do futuro. Energia, dados, inteligência artificial, sistemas autónomos, defesa, espaço e monitorização do oceano começam a formar um novo ecossistema económico.

Naturalmente, um investimento não transforma um país. Nem um centro de excelência cria, sozinho, uma indústria. Mas quando os sinais começam a repetir-se, talvez devamos prestar atenção.

A chegada da ICEYE Portugal é mais um desses sinais. O mundo começa a olhar para o nosso país não apenas pelo sol, pelas praias ou pela qualidade de vida, mas pelo talento, pela geografia e pela capacidade tecnológica.

Talvez Portugal ainda não seja uma potência espacial. Mas começa finalmente a perceber que o seu futuro também pode ser visto a partir do espaço.